sábado, 5 de março de 2011

ser e mente

e só se está em todos os sonhos
e sonos, os seres mansos,
os sonsos.
há só solidão no vagar dos sonâmbulos.

a vida é estranha e mente
quando sonha e sem ver
nem mexer sente. se assemelha
aparente, mente, lógica,
e se psicológica, também
mente

mas que o sonho não espelha
senão vida semente
bem, ao menos pressente a vida
que sente e sabe vir nas horas
de sono sonoras e em tom diferente

o sonho de braços largados
dos sujeitos desavisados
o sonho dos que se deixaram
ou foram
deixados juntos a sós.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Joana

"Quando ele se emocionava, quando se surpreendia, balançava a cabeça, assim, devagar, em não, como quem recebe mais do que esperou. Ele era lindo. E sobretudo estava vivo. E sobretudo eu o amava. Eu nascia, e meu coração era novo quando eu o via. Eu nascia, eu nascia, eu nascia. Agora um verso. O que eu quero, meu bem, é te ver sempre, meu bem. Como te vi hoje, meu bem. Mesmo que morreres, meu bem. Outro: Ouvi um dia uma flor cantando e tranquilamente me alegrei; depois me aproximei e, milagre, não era flor que cantava mas um passarinho sobre a flor."
Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

amormeuzinho

Sim, sem dúvida, o bom do caminho era parecer haver volta. e eu já nem insisto que a vida é a morte. penso sempre em como era bom. gostara de voltar, para casa, para a nossa casa, por esse caminho com volta. eterno. nenhum caminho devia ser tão longo, árduo e tão amargo quanto esse desvio que tomara para eternidade. prefiro a morte. que é esse não ter volta no caminho. que é poder continuar morrendo sob a luz do sol radiante na minha janela. com essa música, que toca a eternidade. mas prefiro essas células tão vivas que parecem já mortas. prefiro o gesto que faz do meu corpo movimento. que eu morra, e que não seja tudo interminável. que a natureza das coisas, as plantas tão atentas aos pássaros, a lua tão respeitosamente me engane, me enganem e faça com que eu acredite nos dias e nas noites, e nos ciclos da eternidade. e que eu nunca tenha idade, nem tempo para abandonar o amor. que eu queira sempre voltar, que eu queira ir por outros caminhos. por todos os caminhos. e que a vida seja sim esse encaminhar-se para o eterno retorno, caso ele fosse possível.
como se a vida não fosse a morte,
como se a vida fosse o caminho, quero morrer desse jeito. quero perder as contas de quantas vezes retornei a tudo que amei na vida.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

saudade de nazaré

"...e por essa precisão de memória amorosa que só os artistas despertam, o nome dele vem se gravando nas lembranças da maneira menos egoística do amor: sem que reflita a imagem dum corpo amigo ou amante. O Nazaré… Quem era? Não se sabia não. E inútil se saber. Era um desses amores que estão na religiosidade obscura de todos os vivos capazes de querer bem, na parte de nós em que amamos os nossos mitos, os
atos sem atividade, os nomes sem corpo, os anjos e os artistas."
Mário de Andrade