sábado, 20 de agosto de 2011



"A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu
Tem olhos como estrelinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos...
É tão bonita! tem um cabelo fino, um corpo menino e um andar pequenino
E é a minha namorada... vai e vem como uma patativa, de repente morre de amor
Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por uma nuvem adentro...
Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes
Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo
E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça...

A minha namorada é muito culta, sabe aritmética, geografia, história, contraponto
E se eu lhe perguntar qual a cor mais bonita ela não dirá que é a roxa porém brique.
Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho
E nunca se esquece que é a menininha do poeta.
Se eu lhe perguntar: Meu anjo, quer ir à Europa? ela diz: Quero se mamãe for!
Se eu lhe perguntar: Meu anjo, quer casar comigo? Ela diz... — não, ela não acredita.
É doce! gosta muito de mim e sabe dizer sem lágrimas:
Vou sentir tantas saudades quando você for...
É uma nossa senhorazinha, é uma cigana, é uma coisa
Que me faz chorar na rua, dançar no quarto, ter vontade de me matar e de ser presidente da república.
É boba, ela! tudo faz, tudo sabe, é linda, ó anjo de Domremy!
Dêem-lhe uma espada, constrói um reino ; dêem-lhe uma agulha, faz um crochê
Dêem-lhe um teclado, faz uma aurora, dêem-lhe razão, faz uma briga...!
E do pobre ser que Deus lhe deu, eu, filho pródigo, poeta cheio de erros
Ela fez um eterno perdido..."


O poema acima foi extraído do livro"Antologia Poética", Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 68.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PALAVRAS DE MULHER

estava lendo um poema de Adélia Prado e também me lembrei da minha mãe:

PALAVRAS DE MULHER

Minha mãe
achava estudo
a coisa mais
fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina
do mundo é o sentimento.

Adélia Prado

PALAVRAS DE MULHER

Minha mãe tinha certezas
que nem o estudo daria
nos muros mais improváveis da vida
encontrava begônias
perdidas
achei que viviam
além da força da vida

achava a coisa mais fina do mundo
o sentimento.
Ela achava o estudo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo
é aprender a amar.

Júlia Agostini


quarta-feira, 6 de julho de 2011

como quem desacorda com o tempo de todos os relógios do mundo, meu coração sofre de arritmia. às vezes em que a vida se apodera de meus sonhos e desmancha toda cor do céu, meu corpo sofre, já sem lágrimas. tudo é tanta falta de sangue circulante que fechar os olhos é como estar bêbado, que no fundo é como estar fraco e tonto também. sem forças. como um banho de água fria sobre o desenho de um corpo vivo. como um papel branco, molhado e murcho. como se fosse a vida se dissolvendo..
e o mundo como a falta de borracha mesmo, apesar de tantos enganos.
o tempo do mundo escorre seu pincel na noite..e eu durmo sem sono. pode ser que demore, mas sempre e só com o tempo, companheiro fiel, pode-se encontrar um céu manhoso com que acordar,

tarde, mas com o coração bom.

sábado, 2 de julho de 2011

a tua voz fala amorosa...

a

"Qual é a tarde por achar
Em que teremos todos razão
E respiraremos o bom ar
Da alameda sendo verão,

Ou, sendo inverno, baste 'star
Ao pé do sossego ou do fogão?
Qual é a tarde por voltar?
Essa tarde houve, e agora não. 


Qual é a mão cariciosa   
Que há de ser enfermeira minha —  
Sem doenças minha vida ousa —   
Oh, essa mão é morta e osso ...   
Só a lembrança me acarinha   
O coração com que não posso.  " Fernando Pessoa

sexta-feira, 20 de maio de 2011

MADRIGAL MELANCÓLICA

"O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é a vida!"