sábado, 24 de janeiro de 2026

desvio

cobre o seu rosto, desvie
esconda seu cheiro
vivo em algum lugar 
vazia, respiro palavras e desejo
com sufoco

desvia a rota para não perder 
o fio

ganha tempo emprestando seu passado
perfila seus tons, modula
some com suas dúvidas 
nas minhas palavras 
lentamente pronunciadas,
para que o caminho se desfaça

rastreia seu sentido
e soma
teu sumiço
ao próprio desvio.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Sua palavra

sua palavra corta, 
sua fala me desmancha
a cor do céu se estranha
e este meu sentimento sangra.

corte sua palavra
desmancha, sua fala
seu céu, sua cor... me entranha
teu sangue estranho meu sentimento ganha

não me desmanche o céu
fere-me com a cor de sua palavra
até que eu sinta ganhar, sangre
fala com seu sangue para que eu me entranhe

o prazer da sorte é não ser morte
o bom da morte é não ter sido sua


segunda-feira, 16 de julho de 2018

passagem

Quando eu te encontrei
eu não achei o que procurava
eu perdi um pouco do que tinha
e do que nem tinha para dar
perdi o ar que nem pensava em respirar

Quando eu te encontrei
vi-te passar na janela da vida:
momentos que nem sequer viveria
e menos, vivi menos ainda
apenas na chance de um dia encontrar-
te passando, e deixando me já

Quando enfim te encontrei
perdi-te completamente
não encontrei-me na sua vez
vi-te sumir, nos abraços que não devias dar
guardei, de relance, aquele jeito de olhar
e um pouco do som da fala que você não me quis

dar
você não quis-me
dar
você me quis apenas
dar
e eu vi em ti aquilo que não queria
dar
dar-te
eu dei te beijos para lembrar

terça-feira, 8 de maio de 2018

DESENCONTRÁRIOS

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.

Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas ficam de pé.

Paulo Leminski

[Poemblog]

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Como tem passado...
como tens passado...
quanto tempo tem passado
desde que você

você passou?

como foi que o passado
passou a ser conformado
e você não confrontou
o que ficou de lado?

eu fiquei no futuro do teu passado
ou passei a ser seu futuro

inacabado?

como tem tempo...
como não tem mais...
como temos menos
quanto? onde?

você passou?
o tempo passado
como você passou?
quando você passou
onde eu confrontei o teu futuro
eu me inacabei no seu passado.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

CONTRADICCIONES, PÁJAROS



"As verdades são a única verdade,
essas pequenas marcas da nossa história.
Se dissessem a verdade, as verdades,
mentiriam.

Apesar de as verdades
também mentirem com a sua verdade:
a contradição,
esse ninho de pássaros ruidosos.

Parece que não se suportam, as contradições,
neste mundo nosso.
Mas tentamos fugir-lhes como os pássaros,
fugir, ficando."

Ángeles Mora
(Trad. A.M.)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

DEL LADO DE LA LUZ

Miro la tumba de mi madre y creo
que no debe de estar debajo de la tierra.
Siempre le horrorizaron los espacios oscuros.
Tan pequeña de cuerpo, se ha debido
escapar por los huecos
que entre el cemento dejan los ladrillos
o por alguna de las
rendijas de la caja, ventanas a la aurora.
O, quizás, por lo inquieta que siempre fue, ha tomado
el secreto camino que ofrecen las raíces
del rosal, del ciprés o el crisantemo,
y andando y desandando
por sendas donde nace la vida de las flores
ha llegado hasta el tronco
y, luego, hasta las ramas
y, después, a la flor, y se ha escapado
en las alas fecundas de alguna mariposa.
O, tal vez, nunca ha estado
allí, sino que el día,
ese día en que todos dijimos que había muerto,
no fue verdad. Tan sólo se había ido
de su cansado cuerpo para vernos
desde la luz más claramente.


Joaquín Benito de Lucas

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Não foi pouco, mas não foi tudo.


E não é que eu tive? Tive mortes, arrepios. 
Tive abismos. 
Bem que eu te disse que a vida não erra nada. 
A vida era tudo.
E eu não sei porque você quis que fosse apenas.
Você terá tudo e um pouco mais. 
Não pense no começo como se fosse o fim, porque depois da tempestade, depois da madrugada de insônia, de árvores em pedaços... não faça as contas do prejuízo. 
Depois de tudo virá o mais.
Nunca será demais. 
Será isto. E ainda é melhor que seja.


É só com esse mais que a gente aprende a ser menos.


sexta-feira, 2 de março de 2012

A um ausente


"Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste." (Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 27 de novembro de 2011

foi sem contar os passos, subindo degrau por degrau, que ela chegou aos céus. seus olhos iluminaram-se diante daquele cenário exuberante. nem tão exausta quanto lhes parecia, respirou aquela vista, e foi como encher-se de vida. e estava tão leve quanto nada quanto existe no mundo. já não tinha os pés sobre aquela terra. estranho como sempre pensou que o céu era a superfície e por sua divindade sequer tocava a terra no horizonte. embora considerasse teimosia, e tendo em vista aquela visita ao céu, pareceu-lhe, por fim (ou infinitude) que o estado das coisas independia do seu caprichoso juízo. as mulheres eram mais homem que todos os homens do mundo. inspirou aquele ar puro e esqueceu.. sem contar com o que se passava, pediu perdão por chegar aos céus ainda cheia de humanidade. então não tinha fim..continuou perturbada..e caminhou um pouco mais. foi a última pontada de desejo: quem sabe o mar?

terça-feira, 22 de novembro de 2011

acordei ao anoitecer e senti um sopro de vida vindo de você, da saudade que te torna mais viva dentro de mim. a vontade de chorar vai passando. ligo para alguém que me deixa pensar em você livremente. está mais perto de mim do que eu mesma imaginava. não sofro mais tão só. a gelada paisagem estrangeira se dissipa..todos os dias se morre um pouco e, no entanto, é algo que preferimos apagar. a morte só existe nos outros. eles só existem em nós..o que foi que eu perdi? estou certa de que não perdi alguém. nem ninguém perde alguém. sua voz alcança meus dias, seu sorriso invade meus olhos e ainda procuro, entre notas, melodias que te façam mover..

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Lembro tanto de você, escutando Elis Regina. poucas vezes a vi chorando como nesses momentos. no dia em que eu vim embora, também não teve nada demais.. pareceu não haver tido.. afora tudo isso, ia indo, não é? tempos depois fui descobrir seus escritos, e de como também você chorava enquanto cozinhava, com o cheiro de alho frito na panela e com a música que a gente fazia, sem nem saber que você escutava.. afora isso, ia indo.. afora tudo isso, eu vou indo..eu ia indo. mas se eu quiser falar com Deus hoje, precisarei esquecer a data. e no que eu pensava enquanto ia não sei pra onde. você também não sabia. qual seria a nossa dificuldade de dizer sobre aquilo que nos fazia ir..e agora eu paro porque estou descobrindo pra onde ia. preciso parar, não quero que tudo, afora tudo isso, vá indo. quero que você saiba, mãe, para onde sua filha vai indo.. e sempre foi indo bem e é por isso mesmo que dói tanto não poder dizê-lo, tocá-la. Vou indo, mãe, nem tão sozinha, mas muito (e como sempre) amada. fui longe porque fui para onde você sem nem dizer me dizia. fui indo, afora isso, atravessando, seguindo, nem chorando nem sorrindo, sozinha..pra capital. com uma mala que nem fedia, nem cheirava mal. uma mala cheia de lembranças, cheia de sonhos, cheia de vida. cheia de solidão, mas uma solidão de quem foi tão amada que é capaz de seguir..afora isso, no fundo, foi demais, não é? e ainda que você não tenha dito nada, e afora tudo isso, eu ia indo, sorrindo e chorando, agora chorando mais que sorrindo..no dia em que você foi embora, desde então, às vezes chorando, às vezes sorrindo.. embora sozinha, vou com ajuda de outras mãos. que quando eu me vi sozinha, vi que não entendia nada. sentia apenas que amava. amá-la, pela vida, era tudo o que eu sabia.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

"Saudades.
Muitas.
E só de ti.
Mas quem és tu?
Serás aquele que primeiro amei.
Ou o outro, que primeiro me amou?
Ou aquele com quem vivi.
Ou aquele que viveu comigo?
Serás quem amo ainda.
Ou quem já abandonei há muitas horas?
Serás quem me ateia os incêndios nocturnos.
Ou aquele que os apaga em gestos suaves?
Serás aquele que expulsei da minha casa.
Ou quem a mim me expulsou?
Serás quem me ensinou a ler um corpo.
Ou aquele que aprendeu comigo o alfabeto da lingua vagarosa sobre a pele?
Serás o que matou ou quem matei?
Quem és tu, de quem sinto estas saudades muitas?

Tantas como quem deixou um mundo de coisas abertas na vida e perdeu as chaves no caminho.
"

Elisa, bebedeiras de jazz.

sábado, 3 de setembro de 2011

Pablo

"Debemos hablar el uno con el otro tanto como podamos. Cuando uno de nosotros muera, van a haber algunas cosas que el otro nunca va a poder hablar com nadie más." Pablo Picasso

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

amor-próprio. amor-perfeito. tudo parecem ser flores. dizer hoje que aprendi a me amar e me amo profundamente, perdidamente, loucamente. ora, a quem é que isso poderia interessar além de mim mesma? pois não interessa!
eu vou escrever o que eu quiser. vou escrever que o dia está como todos outros dias que vivi, não fosse essa determinação em aceitar a mim mesma, não só com amor, mas também com espanto e às vezes com muita dor. e se alguém por isso se interessar, talvez não seja necessariamente para me criticar (mesmo que eu aceite receber críticas e estou aprendendo a aceitá-las também). covarde daqueles incapazes de dizer, dizê-lo, dizer-te que é capaz de amar as palavras de amor. só a possibilidade de dizer já é uma verdade tão bela que eu não poderia ser a mesma. palavra que transforma. e o acordar não é preguiçoso como se o mundo fosse desinteressante. sem aborrecimentos? não. compromissos e "contra-atos". tantos lugares para se perder, perder a vista, perder o som, perdê-los.. porém, é onde eu me encontro é que sou capaz de encontrá-los. e eu só me encontro no amor. só me encontro na beleza e na fluidez que as coisas espontâneas possuem. eu só me encontro naquilo que me fere, naquilo que desacelera, nos meus machucados e nas maiores feridas (que também só foram possíveis por causa do ser apaixonado que encontrei em mim mesma). assim como tudo que já conquistei na vida. e eu já não preciso pensar, eu acredito. eu sei para onde ir, e são tantos caminhos possíveis. e sempre foram tantas as possibilidades, ir longe, muito longe, minha filha. estar perto, muito perto, dormir ao seu lado. sonhar com você. dormindo, acordada. um presente. porque não há quem não saiba quando está realmente recebendo um presente para si. ou quando um ato não lhe endereça nenhum sentido.
não há traição maior que enganar a si mesmo.

sábado, 20 de agosto de 2011



"A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu
Tem olhos como estrelinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos...
É tão bonita! tem um cabelo fino, um corpo menino e um andar pequenino
E é a minha namorada... vai e vem como uma patativa, de repente morre de amor
Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por uma nuvem adentro...
Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes
Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo
E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça...

A minha namorada é muito culta, sabe aritmética, geografia, história, contraponto
E se eu lhe perguntar qual a cor mais bonita ela não dirá que é a roxa porém brique.
Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho
E nunca se esquece que é a menininha do poeta.
Se eu lhe perguntar: Meu anjo, quer ir à Europa? ela diz: Quero se mamãe for!
Se eu lhe perguntar: Meu anjo, quer casar comigo? Ela diz... — não, ela não acredita.
É doce! gosta muito de mim e sabe dizer sem lágrimas:
Vou sentir tantas saudades quando você for...
É uma nossa senhorazinha, é uma cigana, é uma coisa
Que me faz chorar na rua, dançar no quarto, ter vontade de me matar e de ser presidente da república.
É boba, ela! tudo faz, tudo sabe, é linda, ó anjo de Domremy!
Dêem-lhe uma espada, constrói um reino ; dêem-lhe uma agulha, faz um crochê
Dêem-lhe um teclado, faz uma aurora, dêem-lhe razão, faz uma briga...!
E do pobre ser que Deus lhe deu, eu, filho pródigo, poeta cheio de erros
Ela fez um eterno perdido..."


O poema acima foi extraído do livro"Antologia Poética", Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 68.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PALAVRAS DE MULHER

estava lendo um poema de Adélia Prado e também me lembrei da minha mãe:

PALAVRAS DE MULHER

Minha mãe
achava estudo
a coisa mais
fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina
do mundo é o sentimento.

Adélia Prado

PALAVRAS DE MULHER

Minha mãe tinha certezas
que nem o estudo daria
nos muros mais improváveis da vida
encontrava begônias
perdidas
achei que viviam
além da força da vida

achava a coisa mais fina do mundo
o sentimento.
Ela achava o estudo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo
é aprender a amar.

Júlia Agostini


quarta-feira, 6 de julho de 2011

como quem desacorda com o tempo de todos os relógios do mundo, meu coração sofre de arritmia. às vezes em que a vida se apodera de meus sonhos e desmancha toda cor do céu, meu corpo sofre, já sem lágrimas. tudo é tanta falta de sangue circulante que fechar os olhos é como estar bêbado, que no fundo é como estar fraco e tonto também. sem forças. como um banho de água fria sobre o desenho de um corpo vivo. como um papel branco, molhado e murcho. como se fosse a vida se dissolvendo..
e o mundo como a falta de borracha mesmo, apesar de tantos enganos.
o tempo do mundo escorre seu pincel na noite..e eu durmo sem sono. pode ser que demore, mas sempre e só com o tempo, companheiro fiel, pode-se encontrar um céu manhoso com que acordar,

tarde, mas com o coração bom.

sábado, 2 de julho de 2011

a tua voz fala amorosa...

a

"Qual é a tarde por achar
Em que teremos todos razão
E respiraremos o bom ar
Da alameda sendo verão,

Ou, sendo inverno, baste 'star
Ao pé do sossego ou do fogão?
Qual é a tarde por voltar?
Essa tarde houve, e agora não. 


Qual é a mão cariciosa   
Que há de ser enfermeira minha —  
Sem doenças minha vida ousa —   
Oh, essa mão é morta e osso ...   
Só a lembrança me acarinha   
O coração com que não posso.  " Fernando Pessoa