segunda-feira, 16 de julho de 2018

passagem

Quando eu te encontrei
eu não achei o que procurava
eu perdi um pouco do que tinha
e do que nem tinha para dar
perdi o ar que nem pensava em respirar

Quando eu te encontrei
vi-te passar na janela da vida:
momentos que nem sequer viveria
e menos, vivi menos ainda
apenas na chance de um dia encontrar-
te passando, e deixando me já

Quando enfim te encontrei
perdi-te completamente
não encontrei-me na sua vez
vi-te sumir, nos abraços que não devias dar
guardei, de relance, aquele jeito de olhar
e um pouco do som da fala que você não me quis

dar
você não quis-me
dar
você me quis apenas
dar
e eu vi em ti aquilo que não queria
dar
dar-te
eu dei te beijos para lembrar

terça-feira, 8 de maio de 2018

DESENCONTRÁRIOS

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.

Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

Nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé
certezas o vento leva
só dúvidas ficam de pé.

Paulo Leminski

[Poemblog]

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Como tem passado...
como tens passado...
quanto tempo tem passado
desde que você

você passou?

como foi que o passado
passou a ser conformado
e você não confrontou
o que ficou de lado?

eu fiquei no futuro do teu passado
ou passei a ser seu futuro

inacabado?

como tem tempo...
como não tem mais...
como temos menos
quanto? onde?

você passou?
o tempo passado
como você passou?
quando você passou
onde eu confrontei o teu futuro
eu me inacabei no seu passado.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

CONTRADICCIONES, PÁJAROS



"As verdades são a única verdade,
essas pequenas marcas da nossa história.
Se dissessem a verdade, as verdades,
mentiriam.

Apesar de as verdades
também mentirem com a sua verdade:
a contradição,
esse ninho de pássaros ruidosos.

Parece que não se suportam, as contradições,
neste mundo nosso.
Mas tentamos fugir-lhes como os pássaros,
fugir, ficando."

Ángeles Mora
(Trad. A.M.)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

DEL LADO DE LA LUZ

Miro la tumba de mi madre y creo
que no debe de estar debajo de la tierra.
Siempre le horrorizaron los espacios oscuros.
Tan pequeña de cuerpo, se ha debido
escapar por los huecos
que entre el cemento dejan los ladrillos
o por alguna de las
rendijas de la caja, ventanas a la aurora.
O, quizás, por lo inquieta que siempre fue, ha tomado
el secreto camino que ofrecen las raíces
del rosal, del ciprés o el crisantemo,
y andando y desandando
por sendas donde nace la vida de las flores
ha llegado hasta el tronco
y, luego, hasta las ramas
y, después, a la flor, y se ha escapado
en las alas fecundas de alguna mariposa.
O, tal vez, nunca ha estado
allí, sino que el día,
ese día en que todos dijimos que había muerto,
no fue verdad. Tan sólo se había ido
de su cansado cuerpo para vernos
desde la luz más claramente.


Joaquín Benito de Lucas