quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Não foi pouco, mas não foi tudo.


E não é que eu tive? Tive mortes, arrepios. 
Tive abismos. 
Bem que eu te disse que a vida não erra nada. 
A vida era tudo.
E eu não sei porque você quis que fosse apenas.
Você terá tudo e um pouco mais. 
Não pense no começo como se fosse o fim, porque depois da tempestade, depois da madrugada de insônia, de árvores em pedaços... não faça as contas do prejuízo. 
Depois de tudo virá o mais.
Nunca será demais. 
Será isto. E ainda é melhor que seja.


É só com esse mais que a gente aprende a ser menos.


sexta-feira, 2 de março de 2012

A um ausente


"Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste." (Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 27 de novembro de 2011

foi sem contar os passos, subindo degrau por degrau, que ela chegou aos céus. seus olhos iluminaram-se diante daquele cenário exuberante. nem tão exausta quanto lhes parecia, respirou aquela vista, e foi como encher-se de vida. e estava tão leve quanto nada quanto existe no mundo. já não tinha os pés sobre aquela terra. estranho como sempre pensou que o céu era a superfície e por sua divindade sequer tocava a terra no horizonte. embora considerasse teimosia, e tendo em vista aquela visita ao céu, pareceu-lhe, por fim (ou infinitude) que o estado das coisas independia do seu caprichoso juízo. as mulheres eram mais homem que todos os homens do mundo. inspirou aquele ar puro e esqueceu.. sem contar com o que se passava, pediu perdão por chegar aos céus ainda cheia de humanidade. então não tinha fim..continuou perturbada..e caminhou um pouco mais. foi a última pontada de desejo: quem sabe o mar?

terça-feira, 22 de novembro de 2011

acordei ao anoitecer e senti um sopro de vida vindo de você, da saudade que te torna mais viva dentro de mim. a vontade de chorar vai passando. ligo para alguém que me deixa pensar em você livremente. está mais perto de mim do que eu mesma imaginava. não sofro mais tão só. a gelada paisagem estrangeira se dissipa..todos os dias se morre um pouco e, no entanto, é algo que preferimos apagar. a morte só existe nos outros. eles só existem em nós..o que foi que eu perdi? estou certa de que não perdi alguém. nem ninguém perde alguém. sua voz alcança meus dias, seu sorriso invade meus olhos e ainda procuro, entre notas, melodias que te façam mover..

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Lembro tanto de você, escutando Elis Regina. poucas vezes a vi chorando como nesses momentos. no dia em que eu vim embora, também não teve nada demais.. pareceu não haver tido.. afora tudo isso, ia indo, não é? tempos depois fui descobrir seus escritos, e de como também você chorava enquanto cozinhava, com o cheiro de alho frito na panela e com a música que a gente fazia, sem nem saber que você escutava.. afora isso, ia indo.. afora tudo isso, eu vou indo..eu ia indo. mas se eu quiser falar com Deus hoje, precisarei esquecer a data. e no que eu pensava enquanto ia não sei pra onde. você também não sabia. qual seria a nossa dificuldade de dizer sobre aquilo que nos fazia ir..e agora eu paro porque estou descobrindo pra onde ia. preciso parar, não quero que tudo, afora tudo isso, vá indo. quero que você saiba, mãe, para onde sua filha vai indo.. e sempre foi indo bem e é por isso mesmo que dói tanto não poder dizê-lo, tocá-la. Vou indo, mãe, nem tão sozinha, mas muito (e como sempre) amada. fui longe porque fui para onde você sem nem dizer me dizia. fui indo, afora isso, atravessando, seguindo, nem chorando nem sorrindo, sozinha..pra capital. com uma mala que nem fedia, nem cheirava mal. uma mala cheia de lembranças, cheia de sonhos, cheia de vida. cheia de solidão, mas uma solidão de quem foi tão amada que é capaz de seguir..afora isso, no fundo, foi demais, não é? e ainda que você não tenha dito nada, e afora tudo isso, eu ia indo, sorrindo e chorando, agora chorando mais que sorrindo..no dia em que você foi embora, desde então, às vezes chorando, às vezes sorrindo.. embora sozinha, vou com ajuda de outras mãos. que quando eu me vi sozinha, vi que não entendia nada. sentia apenas que amava. amá-la, pela vida, era tudo o que eu sabia.